sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O Papa Francisco e a pergunta quase sem resposta

"O mistério do mal está além da minha compreensão. As respostas que eu tenho ouvido são insatisfatórias. Não encontro nenhuma palavra na Bíblia que o explique. Concluí que, uma vez estando além da nossa compreensão, Jesus veio não para explicar o sofrimento, mas para chorar e sofrer conosco. Prefiro ver a cruz não tanto como uma reparação dos nossos pecados, mas como a forma de Deus para se juntar a nós em nosso sofrer. Em vez de pregar a partir das margens, ele desce até aqui e sofre ao nosso lado. Eis o amor verdadeiro", escreve Thomas Reese, jornalista e jesuíta, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 23-01-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, "só quando choramos é que podemos compreender".


Artigo:

O evento mais extraordinário da viagem à Ásia do Papa Francisco foi o seu encontro com uma filipina de 12 anos que perguntou, aos prantos, por que Deus deixa coisas ruins acontecerem a crianças inocentes. O encontro não estava previsto, de forma que o papa teve de responder em espanhol já que o seu texto não se adequava à situação.

Confesso que, como padre, nunca fui atraído pelo ministério hospitalar, pois temia ser atingido por algumas dúvidas. Quando jovem, padre inexperiente, lembro ter entrado num quarto de hospital com uma mãe dando carinho a uma criança que estava prestes a falecer. Quis ajudar, mas me senti completamente impotente, sem nada a dizer.

Sim, sei todas aquelas explicações pré-fabricadas: “É a vontade de Deus; Deus tem um plano; o seu filho estará feliz no céu; temos de carregar a cruz que Deus nos deu”. Mas fui inteligente o suficiente para não infligir tais respostas banais a uma mãe em luto, ficando sem saber o que dizer.


Glyzelle Palomar e muitíssimas crianças sofreram com o tufão devastador que atingiu as Filipinas no ano passado. “Por que Deus deixou isto acontecer?”, perguntou a menininha ao papa, cobrindo sua face com as mãos enquanto soluçava.

“Existem muitas crianças rejeitadas pelos pais”, disse ela ao Papa Francisco. “Muitas também se tornam vítimas e muitas coisas horríveis acontecem a elas, como drogadição e prostituição. Por que Deus está permitindo que coisas assim acontecem, mesmo que não seja culpa das crianças? E por que é que temos só poucas pessoas nos ajudando?”

O papa primeiro aplaudiu a menina por se expressar de forma tão corajosa. Então, disse à multidão de jovens reunidos na Universidade de Santo Tomás, em Manila, que prestassem atenção porque ela “fez a única pergunta que não tem uma resposta”.

O pontífice não respondeu dando uma palestra teológica sobre o mistério do mal. Em vez disso, afirmou as lágrimas dela, dizendo: “Só quando formos capazes de chorar sobre as coisas que vivemos, é que podemos compreender qualquer coisa e dar alguma resposta”.

Ele reconheceu que a “grande pergunta que se põe a todos é: Por que sofrem as crianças? Por que sofrem as crianças?” O papa encontra uma resposta não em sua cabeça, mas em seu coração.

“Somente quando o coração consegue fazer a si mesmo a pergunta e chorar, então podemos compreender qualquer coisa”.

Para Francisco, o mundo precisa responder ajudando as vítimas de desastres com auxílio e dinheiro. Ele observou que Cristo curou os enfermos e alimentou os famintos, e o mesmo devemos nós fazer. Porém, acrescentou, “só quando Cristo chorou e foi capaz de chorar é que compreendeu os nossos dramas”.

Aqueles que sofrem precisam não só de ajuda, mas de lágrimas. “No mundo de hoje falta o pranto”, disse. “Choram os marginalizados, choram aqueles que são postos de lado, choram os desprezados, mas aqueles de nós que levamos uma vida sem grandes necessidades não sabemos chorar. Certas realidades da vida só se veem com os olhos limpos pelas lágrimas”.

Em seguida, convidou os jovens que participam do encontro a se perguntarem: “Aprendi eu a chorar? Quando vejo uma criança faminta, uma criança drogada pela estrada, uma criança sem casa, uma criança abandonada, uma criança abusada, uma criança usada como escrava pela sociedade?”. Ou nós somente choramos quando queremos algo para nós mesmos?

“Porque sofrem as crianças?”, perguntou Francisco. “A grande resposta que lhe podemos dar todos nós é aprender a chorar”. Ele trouxe o exemplo de Jesus apresentado nos Evangelhos. “Ele chorou, chorou pelo amigo morto. Chorou no seu coração por aquela família que perdeu a filha. Chorou no seu coração, quando viu aquela pobre mãe viúva que levava o seu filho ao cemitério. Comoveu-Se e chorou no seu coração, quando viu a multidão como ovelhas sem pastor. Se vós não aprenderdes a chorar, não sois bons cristãos”.

Como conclusão, ele diz: “E quando nos fizerem a pergunta: ‘Por que sofrem as crianças, por que acontece isto ou aquilo de trágico na vida?’, que a nossa resposta seja o silêncio ou a palavra que nasce das lágrimas. Sede corajosos, não tenhais medo de chorar”.

O mistério do mal está além da minha compreensão. As respostas que eu tenho ouvido são insatisfatórias. Não encontro nenhuma palavra na Bíblia que o explique. Concluí que, uma vez estando além da nossa compreensão, Jesus veio não para explicar o sofrimento, mas para chorar e sofrer conosco. Prefiro ver a cruz não tanto como uma reparação dos nossos pecados, mas como a forma de Deus para se juntar a nós em nosso sofrer. Em vez de pregar a partir das margens, ele desce até aqui e sofre ao nosso lado. Eis o amor verdadeiro.

As palavras do papa também me recordaram de uma cena do livro “Os Pilares da Terra”, de Ken Follett. Quando uma estátua de Nossa Senhora das Dores começa a chorar (o choro não é de verdade), uma mulher que perde o filho num terremoto vivencia uma cura e profere suas primeiras palavras desde a morte do ente querido: “Ela compreende”.

A mãe de Jesus chora aos pés da cruz, e é por isso que, ao longo dos séculos, as mulheres que perderam seus filhos por doenças, acidentes, guerras e desastres naturais voltam-se à Nossa Senhora das Dores para consolarem-se. Ela perdeu um filho. Ela compreende.

Só quando choramos é que podemos compreender.

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