segunda-feira, 2 de março de 2015

A Transfiguração revela a identidade de Jesus


A transfiguração continua a revelação da identidade de Jesus, iniciada no batismo no Rio Jordão
Jesus é o Filho amado de Deus, enviado para ser ouvido. É ele a Palavra, o Evangelho, a habitação de Deus. Nele encontraram sentido as Escrituras representadas por Moisés e Elias. Os três apóstolos, espectadores atônitos e medrosos diante da manifestação de Deus, vivem depois a doçura daquela experiência, mas devem continuar, descer para a planície, depois da antecipação da luz do Ressuscitado.
A Transfiguração revela a identidade de Jesus.

No contato com as pessoas, Jesus se revela mais humano do que todos os homens e mulheres que encontra, manifestando sensibilidade inigualável diante da alegria, os sofrimentos e todas as dores dos diversos grupos de pessoas. O resultado é que ninguém consegue ficar indiferente diante de sua presença. O episódio da Transfiguração expressa, visto do ângulo humano, a imensa delicadeza com os discípulos destinados anunciar o seu mistério. Jesus leva à montanha os três, chamados a participar mais de perto de alguns acontecimentos decisivos, para revelar-lhes sua própria identidade. Começaram a entrar no mistério, para descer da montanha com novas disposições.
Subamos com Jesus e seus discípulos ao Tabor, para conhecer mais de seus segredos. Não desceremos diminuídos em nossas aspirações ou frustrados em nossos planos de realização humana. Se nos confrontarmos com o Senhor, nascerá em nós o maravilhoso dilema, conduzidos pelas mãos e o exemplo de Pedro, aquele afoito discípulo e apóstolo, para quem bastavam as três tendas, para Jesus, Moisés e Elias. Nem pensou em si ou em seus companheiros!
Para que o mistério se realize em nós, subamos à montanha para rezar. Isso quer dizer escolher como programa uma imensa vida de oração. E a Quaresma, tempo privilegiado em que nos encontramos, é ocasião propícia para crescer na intimidade com Deus. Se rezar é um dever, este nasce de dentro do coração, em quem se reconhece criatura amada profundamente por Deus. Basta um olhar pessoal trocado com o Senhor, no reconhecimento da obra prima que realizou ao nos criar e salvar, para que os joelhos da alma ou do corpo se dobrem, as mãos se elevem no louvor e na ação de graças ou as lágrimas de pecadores arrependidos se derramem.
Quem reza se salva, quem reza contempla, quem reza melhora de vida como pessoa humana e como cristão.
Chegados ao Monte Tabor, a atenção do Senhor concedeu aos discípulos a presença de duas testemunhas, e que testemunhas! Nada menos do que a visão de Moisés e Elias. Aquele que é Senhor da Lei submete-se a ela, como se fossem juízes os pobres discípulos ali presentes. Não é diferente em nossa vida cristã.
Basta verificar a história da Salvação, com a quantidade de homens e mulheres que a Escritura apresenta, pessoas que passaram por todas as provações imagináveis. E a história da Igreja? Para recordar apenas uma alegre notícia, há poucos dias o Papa reconheceu formalmente o martírio de Dom Oscar Romero, que será proximamente beatificado, um sinal precioso para a nossa geração. E sabendo ser grande a lista, somos mais privilegiados do que os apóstolos! Olhando em torno a nós, não serão poucas as outras testemunhas, homens e mulheres que gritam com a vida a verdade da fé em Cristo.
“Portanto, com tamanha nuvem de testemunhas em torno de nós, deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que nos envolve. Corramos com perseverança na competição que nos é proposta, com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente da nossa fé e a leva à perfeição” (Hb 12, 1-2). As testemunhas, verdadeiras companhias qualificadas, nos fazem melhores!
O Cenário está preparado. Se somos companheiros de Jesus e de seus Apóstolos, não tenhamos medo de entrar na nuvem, nada menos do que a presença do Espírito Santo, muito mais efetiva do que as eventuais nuvens “eletrônicas” de nossos dias. É necessário, para ser melhores, o aprendizado da contemplação, um olhar apurado que não despreza os sinais deixados por Deus. Vale a pena exercitar, a esta altura da Quaresma, este olhar contemplativo, que vai além das aparências.
Seremos melhores se formos mais serenos e atentos, acolhendo as muitas indicações que nos são oferecidas pelo Espírito Santo.
Agora, os discípulos de ontem e de hoje precisam ouvir! “Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: ‘Rabi, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias’ Na realidade, não sabia o que devia falar, pois eles estavam tomados de medo. Desceu, então, uma nuvem, cobrindo-os com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: ‘Este é o meu Filho amado. Escutai-o!’ E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém: só Jesus estava com eles” (Mc 9, 5-8). O discípulo aprende ao conviver com o mestre e ouvi-lo! Se vale para o aprendizado das coisas humanas, o que dizer da escola de vida divina, oferecida pelo Senhor! E como para bom entendedor, meia palavra basta, a Palavra que sai da boca de Deus é fonte inesgotável para o aperfeiçoamento humano.
Da Transfiguração para cá, estando o Senhor entre nós, quando reunidos em seu nome, a mesma experiência se repete. Os olhos se abrem, os ouvidos apuram melhor o que escutam, a Trindade se revela. E os discípulos continuam a aventura proposta por Jesus, acolhendo a revelação do amor de Deus, que lhes mostra também o melhor que existe no coração humano. Descendo do Tabor para a planície do quotidiano, são chamados a anunciar e testemunhar o que apenas vislumbraram, mas experimentaram diretamente, quando o Senhor ressuscitou. Não cabe voltar atrás nem fugir das responsabilidades que lhes foram entregues, mas serão sempre missionários e missionárias, enfrentando todos os desafios que se apresentarem.
Onde lhes for dado estar presentes, os cristãos haverão de ser restauradores de ruínas!
Onde houver pessimismo e derrotismo, anunciarão a vitória do bem e da verdade, pela força da Ressurreição de Cristo. Quando encontrarem pessoas destruídas pelos próprios pecados ou os pecados dos outros, saberão ser artistas, conduzidos pela luz do Espírito Santo, recompondo a unidade quebrada, permitindo que Deus faça dos cacos quebrados um bonito mosaico, obra de arte que só pode vir de seu amor infinito. Espalharão a semente do perdão, nascida do Pai das Misericórdias, convidando a todos para dele se aproximarem.
Sua presença no mundo é testemunha de que o dia de hoje é sempre melhor do que ontem, e o amanhã se abre em horizonte de esperança.

Dom Alberto Taveira Corrêa

Dom Alberto Taveira foi Reitor do Seminário Provincial Coração Eucarístico de Jesus em Belo Horizonte. Na Arquidiocese de Belo Horizonte foi ainda vigário Episcopal para a Pastoral e Professor de Liturgia na PUC-MG. Em Brasília, assumiu a coordenação do Vicariato Sul da Arquidiocese, além das diversas atividades de Bispo Auxiliar, entre outras. No dia 30 de dezembro de 2009, foi nomeado Arcebispo da Arquidiocese de Belém – PA.
Fonte: Canção Nova

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